GETTING PERSONAL Ana Clara Soares GETTING PERSONAL Ana Clara Soares

Que pena

Desabafos e pensamentos nesse blog são normalmente expressos em inglês, mas esse post deve ser necessariamente em português. Que me perdoem os anglófonos.

Tenho pensado diariamente em me desligar das mídias sociais, pois o que vejo me traz mais tristeza do que esperança. "Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina" - como diria Adélia Prado. Então aqui estou, me sentindo no direito (e dever) de expressar tais sentimentos que vêm me consumindo.

Mas que pena que se expressar tornou-se sinônimo de radicalismo. Que pena que discordar com "B" tornou-se sinônimo de apoiar "A". A vida, que sorte a nossa, não é tão preta ou branca, 8 ou 80, e não há quem me convença do contrário.

Minha primeira reação ao ver tantos "amigos" e familiares defendendo um candidato cujas ideias me embrulham o estômago foi me perguntar - por quê? Não encontrei argumento que justificasse uma descida além do fundo do poço do que considero (para mim, notem) moralmente aceitável. E por mais que busque na empatia o respeito necessário para o convívio amigável, a tristeza de termos chegado onde chegamos, nesse "nós contra eles", me consome. Diariamente. Hora por hora, minuto por minuto. 

Sou forçada a me perguntar o que tais amigos e parentes pensariam de mim se fosse negra, ou pobre. Mulher, mãe e grávida eu já sou. Tenho a sorte de morar em um país onde minha condição humana não se volta, institucionalmente, contra mim (e se a Alemanha ainda está longe da igualdade salarial entre homens e mulheres, imaginem o Brasil). Morar na Europa é minha sorte e privilégio, e que pena que seja assim. A meu ver, morar fora do Brasil deveria ser uma opção, não uma escapatória.

O meu voto é portanto a favor de mulheres menos privilegiadas social e financeiramente do que eu. É também a favor de homossexuais, e de negros. O meu voto não é necessariamente contra o seu voto; esse desabafo não é uma afronta. É um desabafo político, mas não somente. A verdade é que a minha preocupação prioritária é como mãe. 

Meu filho de um ano pode vir a ser gay, ou afeminado, ou simplesmente fora das normas da "família tradicional brasileira". E isso não deveria ter nada a ver com ninguém além dele mesmo e seus futuros parceiros. Mas me dói a perspectiva de visitar meu país e ouvi-lo sendo chamado pejorativamente de "boiola", entre outros "insultos" esdrúxulos, com a intenção de machucar. Me dói também a perspectiva de que ele poderia ser espancado pelos seus potenciais trejeitos - atitude essa, diga-se de passagem, sancionada abertamente pelo próprio presidenciável em questão. Me dói pelo meu filho e por todos os filhos e filhas que não se encaixam nos padrões grotescos da nossa sociedade hipócrita e retrógrada. Não, não dá.

E o que será do bebê no meu útero? Não sabemos ainda seu sexo - nem entremos na questão de gênero. Pode ser menino, pode ser menina, pode ser intersexual. Eu sei que o amo da mesma maneira, venha como vier. Mas não posso dizer o mesmo da sociedade brasileira. Aos olhos dos "bons valores" brasileiros, se for menino é judeu, se for menina merece ganhar menos, se for intersexual está fadada à prostituição (a realidade de 90% dos trans no Brasil). Para essa sociedade atual, meus filhos já teriam seu potencial limitado - que dirá se elegermos alguém com valores tão obsoletos que consegue fazer o Trump parecer uma opção razoável. 

Isso sem falar da política pró-armamento, que é por si só uma receita para o desastre em um país tão desorganizado quanto o Brasil. E o militarismo? Tenho medo, muito medo. Choro de medo, e me perco na desesperança, fruto da intolerância e do discurso de ódio que andam pregando por aí. Já dizia de Gaulle que "o Brasil não é um país sério". Refutei sua afirmativa enquanto pude, mas por fim, ele sempre teve razão. Que pena.

Antes que me apontem o dedo, afirmo que por aqui não há indiretas. Esse é um artigo apartidário, fruto de uma mente ansiosa, que tenta achar um fio de lógica e esperança em meio ao caos. O que sinto, escrevo.

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